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Dito isto...

Estou a ler 'A primavera negra' do Henry Miller (suposta obra prima no estilo de cronica) e, embora o início dos capítulos seja muito envolvente, rapidamente se torna moroso, com parágrafos extensos e metáforas e ações extrapoladas. E dou por mim desconcertado e a saltar páginas à frente. E claro, Filipe como sou, auto crítico e com tendência haraki, não perco tempo a culpabilizar a minha incapacidade geracional de me deixar conquistar por textos mais densos ou figurados (- porque, se na altura resultou, então claramente o problema sou eu). Mas ponho-me a rever essa conclusão e não acho que se sustente tão bem assim. Porque de facto consumo peças extensas e também me harmonizam e entretêm os clássicos. E não descartando a possibilidade da minha falta de intelecto ou sensibilidade (mas das quais, neste caso, insuspeito por adorar a escrita em fluxo de consciência), permito-me a testar outra hipótese: Tendemos a valorizar a arte antiga e a rebaixar a moderna ao entretenimento vaz...

Reflexões de antes e agora

Talvez as coincidências sejam apenas encontros que ainda não sabemos decifrar.  E a magia é isso mesmo. Não está no impossível, mas no possível que já está a acontecer. O tu e eu aqui, agora. Porque mesmo que existam 500 mundos paralelos, é neste que estamos. E eu deixei de crer. Não preciso. Não creio mais. Agora sei. Não sei o quê, não sei como, não sei porquê. Mas também não preciso. Não é que queira acreditar. É. É factual. Está a acontecer. Existe. Com H. E se o universo permitiu esta combinação específica de tempo, lugar, pensamento e encontro, então isto é mágico o suficiente. Não precisa de adorno. Já tem peso, valor, consequência. E o destino talvez exista, sim, mas não como um guião fechado. Existe como um campo de possibilidades, um terreno inclinado, um vento que não tento compreender, mas preciso de aprender a navegar. A compreensão é um luxo que não nos é exigido. O resto, sim.

Abelhas em traços contínuos

Há uns meses fui de mota até à Póvoa para ver a Fernanda e testar a cabeça e preparar o corpo para distâncias a duas rodas pela Nacional.     Capacete aberto, gola despreocupada, vento na cara, e um pacto silencioso entre a estrada e os outros motards com quem me cruzava.     A ida foi-me mais demorada, pelo apego a um GPS que teimava em não me deixar no sítio certo. Serviu-me a memória que sobrara do ano anterior, e lá descansei a mota perto do farol vermelho.     Dias depois, já na volta, os traços contínuos já não me assustavam e bastou-me seguir as placas brancas.     Mas a meio caminho sinto uma mudança na pele do pescoco. Primeiro estranheza, depois incómodo, depois dor. Um fisgar agudo e um latejar que se ia espalhando.     Dou uma guinada de surpresa e levo a mão ao pescoço. De músculos tensos pelo vento e a velocidade, escavo a gola e sinto-a. Uma abelha.     Esmago-a com os dedos e atiro-a tipo beata. Pressiono o calo...

A carta para o emigrante

Escrevo-te de dentro da camioneta, depois de uns dias em que mal ti vi, mas que me soube bem saber-te por perto.      Estamos sempre pouco tempo juntos quando vos visito. Ora porque apareço de surpresa e não dá para planear, ora porque estás ocupado com os estudos, o trabalho, a carta e o namoro. Mas pelo menos sei que posso, se quiser, aparecer na churrasqueira para uma conversa rápida, e que nos cruzaremos de madrugada sempre que formos procurar comida nos armários.     Vi uma coisa interessante sobre quantos dias nos restam com os pais: Tendo em conta que vou a casa a cada 1 ou 2 meses, estou eles 10 vezes por ano. Supondo que viverão até aos 80, restam-me 200 visitas – 199 agora.     E tenho pensado nisso em relação a ti; em quantas mais vezes te vou ver. E custa-me concluir que, apesar de sermos novos, talvez não chegue às 200.     Está claro que nem tudo é perfeito quando a gente se encontra. Quando estamos longe, damo-nos todos be...

Hipocondríaco

 Ontem tive, de repente, medo da morte.      Um suspiro cansado, repentino, caiu-me como um relâmpago e tive, por momentos, hipocondria pela vida.     A lua amarela crescia fininha, quentinha no céu, e o cheiro a noite queimada de inverno encheu-me os pulmões de frio.     No caminho até a casa depois do teatro, trazia ainda o rescaldo do palco que há uns anos me viu crescer. E nas roupas grossas carregava também o cheiro cúmplice da sala.     Estou ali, na distância até à porta da frente, mas também ainda estou no parque de estacionamento, com os que vieram, entre os abraços mais sinceros e apresentações informais     Peço que me segurem o saco de lona onde trago os elementos cénicos, e fico de mãos livres a olhar para o céu.     Há estrelas; muitas. E a temperatura vê-se em cada expiração solene que faço. E de repente lembro-me que tudo isto é mortal. E que as estrelas cada vez se afastam mais umas das outras.  ...

pão com manteiga

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 A Dona Rita, de roupão rosa apertado até cima, raspa a manteiga nos dois lados da torrada. O pequeno almoço já vai a meio, e é o pescoço que, com estaleca, vai à mão que segura o último pãozinho.      Está surpreendentemente bem composta para quem acaba de acordar. Suponho que use uma maquilhagem minimalista, muito natural, que me deixa a perguntar se já terá acordado assim.     "Tenho 88 anos", diz-me, e fazemos as contas: "de 1937".     Ontem deitou-se quase tão tarde como nós, mas a genica no corpo e a rapidez de raciocínio são de quem teve uma noite de repasto. E de quem tem bem menos uma década do que aquela que carrega.     Vai-se queixando de umas dores nas costas e uns problemas na vista, mas que são normais e não afetam por aí além. Tanto quanto sei, as idas à natação são diárias.     A Rita Jr, ao lado, toma o mesmo pequeno almoço de há anos: um pão aberto ao meio, torrado, recheado com manteiga e um ovo que, depende...

novembro

Sabe-me bem o frio. Tem sabido. Porque sei o que há do outro lado e a perspetiva do agasalho dá-me conforto. Tenho regressado a velhas leituras. Não antigas, mas infantis. E vou transformando em Natal estas pequenas coisinhas que controlo.