Abelhas em traços contínuos
Há uns meses fui de mota até à Póvoa para ver a Fernanda e testar a cabeça e preparar o corpo para distâncias a duas rodas pela Nacional.
Capacete aberto, gola despreocupada, vento na cara, e um pacto silencioso entre a estrada e os outros motards com quem me cruzava.
A ida foi-me mais demorada, pelo apego a um GPS que teimava em não me deixar no sítio certo. Serviu-me a memória que sobrara do ano anterior, e lá descansei a mota perto do farol vermelho.
Dias depois, já na volta, os traços contínuos já não me assustavam e bastou-me seguir as placas brancas.
Mas a meio caminho sinto uma mudança na pele do pescoco. Primeiro estranheza, depois incómodo, depois dor. Um fisgar agudo e um latejar que se ia espalhando.
Dou uma guinada de surpresa e levo a mão ao pescoço. De músculos tensos pelo vento e a velocidade, escavo a gola e sinto-a. Uma abelha.
Esmago-a com os dedos e atiro-a tipo beata. Pressiono o calo picado, e sinto a ferida já inflamada. Penso parar para olhar, mas distraio-me com a saídane entro, sem querer, na autoestrada.
Próxima saída: 2500 metros.
Arde-me o pescoço e o pânico de poder ser uma vespa asiática.
Próxima saída: 2200 metros.
Nisto, a mota começa a falhar. Engasga-se, apaga e para.
Olho para o contador e encosto. O ponteiro está no máximo, mas nitidamente avariado. Cheira a gasolina e lembro-me que a mota verte sempre que lhe prego a fundo.
Tenho o pescoço quente e tento-me proteger dos carros que rasam em excesso de velocidade.
Próxima saída: 2000 metros.
Saio e começo a empurrar o ferro de 2011 e a bagagem pesada com as mudas de roupa e o restos das refeições.
Custa-me a subida e começo a suar. Tremem-se-me as pernas e até o capacete me pesa o pescoço. Começo a ficar com sede e dores nas costas, e finalmente saio em direção a Ferreiros.
10 minutos depois a estrada nivela, e sento-me na mota a pedir tréguas. Tenho os pulmões a arder e uma sensação de metal na boca. Doem-me as gengivas.
Empunho a mota como se fosse uma trotinete e umas centenas de metros depois começo a descer.
Encontro uma bomba ao longe e arrasto-me até lá. Vou para abastecer e não encontro ninguém. As máquinas automáticas só lêem cartões e eu, pela primeira vez, só trouxe notas.
Safou-me um cliente que abastecia com um black card brilhante. Pagou-me e dei-lhe a nota.
Cheguei a casa com os ovos partidos e a gema viscosa espalhada nos sacos de plastico. Um quadro abstrato numa espécie de assinatura final da viagem.
Maravilha.
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