Dito isto...

Estou a ler 'A primavera negra' do Henry Miller (suposta obra prima no estilo de cronica) e, embora o início dos capítulos seja muito envolvente, rapidamente se torna moroso, com parágrafos extensos e metáforas e ações extrapoladas. E dou por mim desconcertado e a saltar páginas à frente.

E claro, Filipe como sou, auto crítico e com tendência haraki, não perco tempo a culpabilizar a minha incapacidade geracional de me deixar conquistar por textos mais densos ou figurados (- porque, se na altura resultou, então claramente o problema sou eu).

Mas ponho-me a rever essa conclusão e não acho que se sustente tão bem assim. Porque de facto consumo peças extensas e também me harmonizam e entretêm os clássicos.

E não descartando a possibilidade da minha falta de intelecto ou sensibilidade (mas das quais, neste caso, insuspeito por adorar a escrita em fluxo de consciência), permito-me a testar outra hipótese:

Tendemos a valorizar a arte antiga e a rebaixar a moderna ao entretenimento vazio e hiper massificado. Mas quão mais de valor será uma obra que, num mundo cheio de opções, consegue captar e sugar em exclusivo a nossa atenção? 

Portanto existe, na verdade, uma sobre importância nesta capacidade - embora por vezes doentia e capitalista - da produção moderna nos afetar tão democraticamente e profundamente. Se calhar não é tão vão, gratuito, ou oco assim.

É claro que, dito isto, estou aqui farto dos vossos Tik Todos.


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