Hipocondríaco

 Ontem tive, de repente, medo da morte. 
    Um suspiro cansado, repentino, caiu-me como um relâmpago e tive, por momentos, hipocondria pela vida.
    A lua amarela crescia fininha, quentinha no céu, e o cheiro a noite queimada de inverno encheu-me os pulmões de frio.
    No caminho até a casa depois do teatro, trazia ainda o rescaldo do palco que há uns anos me viu crescer. E nas roupas grossas carregava também o cheiro cúmplice da sala.
    Estou ali, na distância até à porta da frente, mas também ainda estou no parque de estacionamento, com os que vieram, entre os abraços mais sinceros e apresentações informais
    Peço que me segurem o saco de lona onde trago os elementos cénicos, e fico de mãos livres a olhar para o céu.
    Há estrelas; muitas. E a temperatura vê-se em cada expiração solene que faço. E de repente lembro-me que tudo isto é mortal. E que as estrelas cada vez se afastam mais umas das outras.
    E o trovão cai.

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