Sabe-me
bem o frio. Tem sabido. Porque sei o que há do outro lado e a
perspetiva do agasalho dá-me conforto. Tenho regressado a velhas
leituras. Não antigas, mas infantis. E vou transformando em Natal
estas pequenas coisinhas que controlo.
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
A Dona Rita, de roupão rosa apertado até cima, raspa a manteiga nos dois lados da torrada. O pequeno almoço já vai a meio, e é o pescoço que, com estaleca, vai à mão que segura o último pãozinho. Está surpreendentemente bem composta para quem acaba de acordar. Suponho que use uma maquilhagem minimalista, muito natural, que me deixa a perguntar se já terá acordado assim. "Tenho 88 anos", diz-me, e fazemos as contas: "de 1937". Ontem deitou-se quase tão tarde como nós, mas a genica no corpo e a rapidez de raciocínio são de quem teve uma noite de repasto. E de quem tem bem menos uma década do que aquela que carrega. Vai-se queixando de umas dores nas costas e uns problemas na vista, mas que são normais e não afetam por aí além. Tanto quanto sei, as idas à natação são diárias. A Rita Jr, ao lado, toma o mesmo pequeno almoço de há anos: um pão aberto ao meio, torrado, recheado com manteiga e um ovo que, depende...
À minha esquerda, o golfo de Elefsina, e à direita, uma senhora rapa as batatas fritas do fundo do pacote. São 8h20 da manhã, estão perto de 40 graus e sigo pela rota que termina em Nafpaktos. Em Portugal são 6h e eu estou aqui de direta. O voo foi à meia noite, mas não consegui adormecer mesmo com as luzes ambiente da Aegens. O casal brasileiro ao meu lado era muito querido e entrelaçaram as mãos com força quando o avião deslocou, mas o gajo até acordado ressonava. Além disso estava demasiado calor para passar pelas brasas e o meu entusiasmo e nervosismo pelas alturas manteve-me colado à janela durante as quase 5h. A primeira coisa em que pensei quando meti o pé em Atenas foi que o mundo é demasiado pequeno para não fazer isto mais vezes. Fiz muitas roadtrips quando era mais novo, mas nada se compara ao poder mágico de um aeroporto. No fundo entras num elevador mágico e quando sais é tudo diferente; não há tempo para adaptação. Tiras o pé do chão...
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