A carta para o emigrante
Escrevo-te de dentro da camioneta, depois de uns dias em que mal ti vi, mas que me soube bem saber-te por perto.
Estamos sempre pouco tempo juntos quando vos visito. Ora porque apareço de surpresa e não dá para planear, ora porque estás ocupado com os estudos, o trabalho, a carta e o namoro. Mas pelo menos sei que posso, se quiser, aparecer na churrasqueira para uma conversa rápida, e que nos cruzaremos de madrugada sempre que formos procurar comida nos armários.
Vi uma coisa interessante sobre quantos dias nos restam com os pais: Tendo em conta que vou a casa a cada 1 ou 2 meses, estou eles 10 vezes por ano. Supondo que viverão até aos 80, restam-me 200 visitas – 199 agora.
E tenho pensado nisso em relação a ti; em quantas mais vezes te vou ver. E custa-me concluir que, apesar de sermos novos, talvez não chegue às 200.
Está claro que nem tudo é perfeito quando a gente se encontra. Quando estamos longe, damo-nos todos bem, mas na proximidade tudo muda. Li algures que a família por vezes é o que nos ajuda na luta contra a tempestade, mas outras vezes é a própria tempestade. E nós somos um ciclone daqueles fortes, com nome de mulher.
Mas prefiro a banalidade das relações imperfeitas a um idílico que é oco. As falhas são bonitas desde que não nos destruam. Se a gente discute, é porque a gente se importa. Se o coração se parte, é porque há coração para partir.
E agora vais emigrar. Emigrar e casar. Não no espaço de meses, mas semanas.
Vamos preenchendo a vida com labor e eis que um dia ela nos atropela de repente. E daqui até à ida restam-nos três vezes.
Já soube que colocaste o nosso nome na lista dos convidados, mesmo sabendo que um oceano nos separará e não estaremos presentes. E isso tocou-me muito. Demais. Foi das coisas mais lindas que, sem saberes, fizeste.
E destroçou-me.
Não só porque vais casar longe, mas porque vais casar longe sem mim.
Sinto que te falhei, que deveria estar aí ao teu lado, à beira e ao pé. A apoiar-te. A tocar-te. A ajeitar a postura para que não pareças mais alto que eu. E juro que ia reaprender os nós da gravata para te fazer o mais bonito de todos.
Sei que nos afastámos há muito, mas de repente fiquei com vontade de compensar o tempo que perdemos. Dizem que o luto é a chama do amor a querer continuar viva. E embora isto não seja luto, é o fim do par de crianças que fomos que só tu, até agora, ainda mantinhas vivo.
Continuo sem perceber quando é que o mundo deixou de ser só nós os dois.
Suponho que foi quando comecei a namorar. Fui estudar, trabalhar. Fui aluno de mérito, atleta. Descobri o teatro e tornei-me filho de fins de semana. E depois veio Lisboa, e a vida em malas de viagem. E depois os filmes, o Keroac, a distância.
E percebo agora que a minha labuta não te há de ter sido fácil. Porque de repente passaste a sentar-te sozinho à mesa com dois adultos barulhentos ou silenciosos demais e a adormecer num quarto vazio onde antes sempre houve dois.
O que torna isto suportável é reconhecer o que sentes e saber que estás feliz e apaixonado.
Vive todos os dias intensamente, mantendo-te sempre fiel a ti mesmo. Cresce, desconstrói-te, mas não percas a tua individualidade. Estou aqui para te incentivar a seres a melhor versão de ti mesmo. Sempre.
- escrito a 27 de maio de 2025
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