Pelo Estado e a inflação

Hoje, se a lei não mais mudar – porque muda nunca –, acordarei morto. 

Caronte, à minha frente, veste um manto castanho e pesado e rema braçadas lentas que içam o pequeno barco. À minha volta, os outros. Todos. Os que conheço e os que tenho como anónimos. É o mundo inteiro. Aqui, comigo; transportados por outros Carontes e outras barcas. Iguais, mas diferentes. Todos no Estige, rumo a um fado de lendas.
    Espreito o afluente em baixo de mim. Aqueronte não tem água e, em vez disso, parecemos flutuar. E eu vejo os cadáveres caídos nas profundezas do rio. Dentes podres, não de excesso de comida, mas de falta de higiene. Tristes gengivas velhas que deixaram escapar a moeda da passagem. Estes perderam-se pelo caminho, como tantos outros. Ou então nem educados sobre o caminho foram e pelo analfabetismo pereceram.
    No mundo dos vivos já facilmente alcançávamos a estratosfera. E com essa ambição nos esquecemos dos confins da Terra. Mas o Tártaro revela-se, agora, bem real. Neste negrume transparente respiro o caos alado que se entranha nos poros do meu não ser. Fecho os olhos para esquecer onde estou, mas de pouco me serve esta defesa de avestruz. Não há para onde ir. 
    Vou rodando a libra desvalorizada dentro da minha boca e comprimo os lábios para que não a perca. Não quero ir-me como os poucos. Quero ir-me como a maioria. Mas maioria já não é sinónimo de melhoria. Privilégio e moda tornaram-se coisas diferentes. 
    Abro os olhos e espreito a nova corrente em que agora entramos. A íris rasga-se-me com a intensidade luminosa das cascatas de fogo e ao longe avisto a silhueta curva de Perséfone. Suspeito que seja a última forma feminina que os meus dois olhos verão. Na eternidade anulam-se os rótulos e já nem homem sou.
    Mas julgo ter vivido bem. Curto, mas aceitável. Cumpri alguns dos meus propósitos e outros ficaram-se pelo caminho. Como ataque podem acusar a minha sociopatia. Mas verdadeiramente acredito que consciencialização de que sou inerentemente mau, me tornou um homem melhor. A minha maldade visceral levou-me a lutar do lado da Luz. E com uma humanidade auto imposta abafei a minha malícia. 
    Por isso não foi a maldade que me matou.
    Foi o Estado. A inflação.
    Eram 11h41 do princípio de novembro. Às 07h55 reuniu-se o Conselho Mundial e às 08h55 começaram as primeiras suspeitas. Às 11h42 já não sobrava ninguém à exceção dos animais desprovidos de culpa.
    Foi o Estado. A inflação.
    Nos últimos meses os medicamentos ficaram mais caros e o preço da comida disparou. A diminuição das mortes rodoviárias devido ao aumento do valor dos combustíveis não foi suficiente para a tal proclamada estabilidade. E o pior foram as condenações pelos furtos de alimentos. 
    E assim o povo se revoltou. Porque foram privados de pão branco, maçãs moles e atum em óleo. E começou o estado marcial, que também não resultou. 
    Foi o Estado que me matou. Foi o Estado e a inflação.
    Numa tentativa de tudo apaziguar, optou-se pelo suicídio coletivo. Às 11h40 já todos tínhamos recebido em casa o pico primitivo da medicina legal. Um comprimido novo que prometia uma morte indolor. 
    Disseram-nos que os custos de produção foram altos, mas quem é que ia sofrer as consequências se não sobrasse ninguém?
    O povo, surpreendentemente, não se revoltou. O clima já estava a ficar bipolar – o atmosférico, digo. Embora os outros não ficassem nada atrás em termos de esquizofrenia. Era avesso atrás de avesso. A própria tecnologia estava a ficar estúpida. Na década de 60, os milhões investidos na caneta espacial Fisher podiam ter sido poupados se se resignassem a escrever com lápis. E agora investiram outros tantos num novo teste rápido que permitia saber se tínhamos gripe ou covid. Mal-empregado, gritou o povo. Se o teste à covid for negativo, então é gripe. 
    Estava na altura de partir. Sou parte do problema. Achava-me vítima do efeito borboleta e depois percebi que a borboleta, afinal, sou eu. 
    O meu barco atracou na areia rochosa e os meus pés caminharam até ao topo da colina. A meio cruzei-me com Sísifo, cujo olhar de canto me remeteu para o L’Ange Dechu de Alexandre Cabanel.
    E por momentos deu-me uma dor forte no peito. A arte. Vou ter saudades da arte. A irrealidade dá-me conforto. Tenho, por escassos segundos, a sensação de afeto. A ficção é cuidada, objetiva, e com desfecho. À realidade é dada o luxo de poder não fazer sentido. O mito é mais verdadeiro porque exige a nossa existência. A realidade aguenta a minha ausência. Por isso se preserva a arte, o fóssil da humanidade. Respeita-se mais a estátua de Cristo do que a mensagem do cristianismo
    Como te chamas?, pergunta-me o Diabo de Gil Vicente. Jacob, respondi, com os punhos ainda em ferida. 
    Mas de pouco serviu. Morri igual. 
    Pelo Estado e a inflação. 

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