Descasco as cascas dos amendoins para um recipiente de plástico pousado em cima das pernas esticadas. É de noite e vejo uma série nova na TV. Estou deitado na cama e tenho um pequeno candeeiro pousado no chão à minha esquerda. Já vou avançado na série, embora só hoje tenha começado. Está bem realizada, escrita e o elenco foi reconhecido. Mas o que realmente me atrai é que me entretém. É fácil de ver. E eu precisava disto. Preciso, ainda. Um fuck it day. Vários, até.
    Esse motivo trouxe-me a esta segunda casa, que numa certa fase se tornara a primeira, mas talvez agora já só considere segunda. Não sei bem. É complicada a genealogia das casas porque, a bem ver, nenhuma é minha. A bem ver, que me deserdem, quem sou? Se é que herdado ainda sou alguém. Se é que preciso de ser. O facto é que cá estou; perto do centro da cidade.
    Entre os sons da crosta a quebrar e uma mastigação interna aos ouvidos, ouço uma travagem brusca vinda do outro lado da persiana fechada. Paro e espero. Conheço bem este lance. Nem segundos depois o carro bate. E eu, lorpa, sorrio. Sorrio porque a minha ausência bucólica me fez esquecer o quão comuns são estes sons. Sorrio porque acidentes destes me ficaram inconscientemente enraizados de nostalgia. Porque corvos e unhas em teclados têm sido a minha ambiência. A própria voz numa casa gigante e as folhas de papel a girar.
    O leste é palco de guerra e eu sinto que preciso de acordar ressacado. Inchado, dorido de um colchão demasiado confortável. Demando a noção de um privilégio que me afague. Preciso de abrir mão da minha parcimónia e negligenciar o nado. Tirar o ar dos pulmões e deixar-me naufragar. Explorar a profundidade do sudário de água e sentir a ponta do pé na areia do fundo. Tocar-lhe, ao de leve – porque é suficiente – e emergir no ponto de quase asfixia.
    Custa-me ver o abandono deixado às trotinetes publicas. Não sei se foram pousadas ou deixadas cair. Sei que tombam ali no meio do passeio; mortas e desamparadas. Desprezadas até que a pressa e o conforto lhes dê utilidade. Uma carapaça oca até a conveniência e o interesse lhe dar função. Até que a troca se corporize. Tudo é troca. Transação. Tudo é acordo. Tudo é simbiose. Quando deixa de ser, morre. Quando nunca foi, nunca existiu.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O apagão

pão com manteiga

O mundo é grande demais para não o fazer mais vezes