Sermão do privilegiado
Solto respirações prolongadas enquanto forço as minhas pernas sem ossos até à beira rio. Do meu bolso vem um audiobook. Reparo na naturalidade da postura cabisbaixa que o dia me trouxe e sigo pela rampa abaixo. Seria tão mais fácil se a evolução me tivesse proporcionado um par de rodas com pneus nos membros inferiores.
Uso roupas largas, calças rotas no rabo e umas sapatilhas que dei ao meu irmão, mas que acabo sempre por pedir de volta. Os meus pés pisam o chão numa coreografia desleixada, como se pertencessem a dois corpos diferentes. Na cara tenho dedadas brancas de uma máscara de hidratação facial e quando passo por alguém olho-o de frente. Quando me fitam com reprovação, ignoro. Outros riem-se disfarçadamente e isso faz-me rir também.
Que seca. É isso que tenho a dizer. Que. Seca. Hoje sim bateu-me a seca. Testemunho, aqui, que isto não é fácil. E não o digo do ponto de vista pessoal porque esse não interessa a ninguém - o que são as crónicas senão uma espécie de masturbação opinativa e auto glorificação literária? Não é fácil do ponto de vista sociológico. Atiram-me aos lobos da vida empresarial ao mesmo tempo que me limitam as oportunidades e acorrentam numa casa familiar. A culpa não é deles. Estamos todos no mesmo barco e não há outra solução que não esta. Mas isso não significa que não me possa queixar.
A minha mãe disse que era normal eu sentir-me assim de vez em quando, principalmente em períodos de confinamento. Mas eu citei-lhe Júlia Pinheiro e disse que, na verdade, o normal é sentir-se bem. Ao que a minha mãe responde "Mas claro que a Júlia Pinheiro se sente bem; ela tem uma horta". E sai da cozinha. Continuo a tirar o meu café sem caramelo e ela regressa. "Ah, não é a Júlia Pinheiro. É a Fátima Lopes" e sai de vez. Pouco tempo depois atira-me, do outro piso, que acha que eu estou infeliz porque o café com caramelo acabou. É possível.
O bom desta vida, tenho que confessar, é a sua instabilidade delimitada. Melhor. O bom desta vida é a sua imprevisibilidade. O saber que a posição em que me encontro pode ser a pior e que amanhã ou depois tudo muda. Eu sou um otimista e isso tem um toque de mágico e maravilhoso. Amanhã pode chegar A Coisa. O Jason Bateman disse que everybody is just one job away, hang in there. E isso é bonito e esperançoso e emociona-me. Pese embora, neste momento, pareça haver uma grande conspiração contra mim.
Pausa.
Acabei de receber uma notificação.
É um email.
Boa!, um email.
Os emails são sempre bons.
"O seu anúncio do OLX expirou".
Chorri.
Logo tomo um banho e sei que isto me passa. É o bom de me reconhecer em mim mesmo. Mas nem um banho me apetece tomar.
Encanta-me a escolha de não prever o futuro e de sofrer como os outros. Por as mãos na cintura e emitir um "E agora o que tens para mim, vida?". É entusiasmante. Mas também é seca. E existe, ainda, a provável hipótese de que o problema não é exterior, mas sim meu. Que isto pode vir do facto de eu nunca conseguir estar bem onde estou e de me aborrecer facilmente.
Sinto falta de sentir desconforto. E também sinto falta de pessoas. Há uns meses abracei uma árvore depois de falar com ela. Foi dos abraços mais sentidos que dei. E, das duas uma, ou a árvore era muito boa ou eu estou num estado lastimável.
Mas sim, tenho saudades de pessoas. Não de ninguém em particular. De pessoas, só. Podia ser um estranho e tenho a certeza que daria uma boa conversa. Quando me sujeito a reuniões virtuais sinto-me bem e falo mais alto que o normal e o tempo passa rápido. Desperto a minha personagem de Filipe social e estou bem. Fico bem. Gosto tanto da ideia de ser solitário como a de ser comunidade e acabo de concluir que preciso, igualmente, das duas. Mas sinto muita falta da que agora não tenho.
A primeira quarentena foi bastante produtiva. O inicio custou, mas depois rendeu. A segunda veio como um abanão nos ombros. Daqueles que dão um mau jeito no pescoço e criam uma micro lesão que dura semanas. Ando mais introspetivo. Ou mais apático. É difícil, nesta altura, distinguir. E tem sido, tudo, uma linha ténue. A própria linha varia entre o fio de ponto de cruz e o cabo de aço inoxidável revestido a nylon. Não que eu perceba alguma coisa de costura ou do que quer que seja que o cabo de aço inoxidável revestido a nylon faça.
Também é possível que acredite que agora estou pior que antes e que isso não seja verdade. Mas o que já aconteceu foi superado e não importa grande coisa. Estou na tal imprevisibilidade que me deixa mártir. Sei que no final vai tudo fazer sentido. Mas, enquanto não faz, vou escrevendo o sermão do privilegiado.
Não me apetece criar. Não me apetece fazer. Tampouco me apetece ser passivo. Isso não consigo. Mas vá lá... Entretenham-Me... Hoje vinha a calhar um pedaço de entretenimento e não um anúncio expirado. Apetecem-me cigarros e apetece-me engordar. E eu não como muito nem sou fumador.
Revejo-me no silêncio antes de uma música. Vivo os segundos antes da primeira nota. Estou no princípio da melodia.
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