Nós conhecemos pessoas e coisas e arte. E isso repara-nos o coração de algo que antes o partiu. Assim que todos os pedaços se voltam a juntar, separados por pequenas fendas do passado, são essas mesmas pessoas e coisas e arte que nos voltam a estilhaçar: a suspender a alma e sugar o espírito. Mas também são elas, ou outras, que, seguidamente, nos dão vida e reparam o vazio, apenas para que o vazio seja trazido novamente. É um nascer e morrer constante, até que perecemos de vez. É um processo, é um ciclo sem fim. O que dita se as pessoas e coisas e arte são boas é o tempo e a fase em que surgem ou desaparecem da nossa vida - se quando estamos partidos ou inteiros.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
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