Deitei-me no escuro, numa cama que já foi mais minha do que agora é, e deixei que os cobertores pesados me aquecessem. As pernas estavam encolhidas e os dedos dos pés contorcidos pelo frio. Do canto do olho, solta-se uma lágrima que escorre pelo centro do nariz e percorre toda a pálpebra esquerda, para depois me beijar o resto da cara sem nunca se render à almofada. Frio e sono. Adormeço.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
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