Uma pós-produção fotográfica tratada, embelezada e, até mesmo, dissemelhante da realidade não pode, a meu ver, ser alvo de crítica. Nos poucos milésimos de segundos que se passam no momento da captura, não é apenas o resultado fotográfico que atrai o fotógrafo. É o olhar para o objeto a olho nu, o caminho até o ver pela lente, o momento perfeito de captura, a verificação do resultado e contemplar, de novo, o objeto a olho nu. Durante esse momento, tudo afeta a mente de quem manuseia uma câmara - o cheiro, os sons, o espaço, a presença do alvo - atributos estes de que a foto original nem sempre faz jus. O resultado final de uma fotografia não é apenas o que verdadeiramente aconteceu. É uma mistura entre a realidade, a visão do profissional e aquilo que ele quer trazer ao mundo. É esse renascer pessoal da realidade que faz da fotografia, arte.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
Comentários
Enviar um comentário