A Vida é Bonita
Ultimamente têm-me dito que estou numa crise existencial,
embora acredite que o uso comum da expressão lhe tenha retirado a delicadeza do
seu significado. Creio que uma crise existencial implique um enorme conjunto de
fatores, cuja vontade minha não é a sua enumeração - talvez por não os saber, ou
porque não me quero dedicar a isso de momento. A expressão em si também
não está bem pensada. Para existir uma crise e eu me aperceba dela, não me
posso limitar a existir (isto vem daquela distinção entre existir e viver, de
que tanto se fala) – tenho que viver. Porque “existir” não envolve perceções. Existir
envolve apenas uma presença biológica. Ou, talvez, não apenas isso, se nos
referirmos a outros mundos. Não sei, bem disse que não sabia muito bem o que pensar sobre o assunto. Bem, voltando ao que importa, pelo menos a mim. O “viver”
carrega em si muitas coisas. Como uma cana de pesca que traz no anzol o peixe, as algas e as gotas de água de diferentes mares. É inevitável. E, se pensar é
considerado crise, então os humanos estão à beira de um colapso. Pelo menos a
maioria. Os outros, a que os deuses garantiram o privilégio (ou dom, ou maldição)
de não pensar, nunca entrariam numa chamada crise pois nem a saberiam
identificar. Lucky bastards. Acredito
que todos, mesmo os não crentes, já deram por si a debater sobre as coincidências
do destino – digo-o sem saber se é um pleonasmo, ou se existe na verdade uma
distinção entre os dois. Acontece sempre algum tipo de concordância que, embora
possa não fazer nascer, na sua forma física, um sorriso, o traz interiormente. Números,
pessoas, situações, avisos. Procuramos, embora por vezes nos esqueçamos,
significados em tudo. É um pouco sem gosto a ideia de que as coisas acontecem
por acaso. É uma questão de perspetiva, na verdade. Uma questão, repito, de saber
alinhar as palavras. Numa loja, o empregado pode perguntar ao cliente, no
processo da compra “é só?” ou “é tudo?”. Tudo
e só vivem muito par a par. É um pouco sem gosto a ideia de que as
coisas acontecem SÓ por acaso. Mas se “tudo” acontecer por um acaso, aí a
situação é outra. Fala-se muito de um sexto sentido, algo de muito místico. Para
mim não existe um sexto sentido. Apenas uma extensão dos outros cinco (note-se
que este “apenas”, poderia muito bem ser substituído por algo como "fundamentalmente é" porque, como disse, é uma questão de
posicionamentos). É um desenvolvimento do que já nasceu connosco. O
despertar de algo que já temos. Antigamente falava-se muito de fado mas devido
à sua banalização em tantas obras – que o colocaram ao nível do romantismo –
este caiu em desuso. Tudo era ação divina, tudo era fado. Como humanos
que somos, depressa passamos "do 80 para o 8" (e admira-me que esta expressão não
tenha ainda decaído pelo mesmo motivo). Agora andamos na corda bamba, um pouco
perdidos, sem saber muito bem o porquê das coisas acontecerem. “Aconteceu
porque tinha que acontecer!” Tinha? Não é isso um conformismo preguiçoso? E perigoso,
até. Sem sal. Talvez o destino tenha um outro nome – instinto. Talvez o nosso
pouco controlo face aos cinco sentidos que já temos faça com que estes assumam
alguma espécie de inteligência – feito nosso, embora inconscientemente – para o melhor de nós. Talvez a procura de significados e todas as coincidências a que chamamos "destino" sejam, na verdade, uma predisposição inata. Talvezes.
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