Escrevo e registo um pouco de mim, deixando um rasto à medida que caminho. Olho para trás e vejo as minhas pegadas em cada letra, numa praia que é o livro. Atribuo muito de mim ao que faço, porque nada mais sou eu do que o que realizo. Mas tudo parece ser tão efémero, deixar parte minha em algo tão frágil, irrelevante, facilmente esquecido e substituído. Nada é mais paradoxal que um texto, que nasce e morre no seu momento de criação e assim se imortaliza. Um pouco como nós.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
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