A primeira vez em Outono

Eu tinha que o fazer. Eu tinha que ir. Algo me chamava do outro lado do bosque e eu entrei. Os meus passos eram barulhentos sob as pequenas poças de água e o meu bastão vibrava a cada batidela naquele solo mole. Depressa humedeci a sola das botas e depois as meias. As pequenas folhas molhavam-me à medida que passava por elas.
O meu bastão cravou-se em algo duro – um fino tronco que outrora tinha sido uma pequena mas esbelta árvore. Continuei a andar, evitando as poças do chão terroso e verde, com as folhas de pinheiro que o almofadavam.
       Acabei por chegar ao meu local sagrado quando avistei duas árvores cobertas de folhas que formavam uma pequena passagem entre elas. Passei, afastando as folhas com o meu bastão, não as impedindo de me molharem os calções e as pernas destapadas. O pequeno lago estava bastante calmo e poderoso. As folhas e ervas que cresciam dentro dele pareciam estar maiores desde a ultima vez que lá tinha estado.
Cravei o meu bastão na erva a uns dois metros de mim e tirei o meu casaco. Quando o fiz, o vento ficou mais forte e abanou as árvores em meu redor. As folhas finas que se encontravam metros acima de mim, deixaram caír grossas gotas de água sob mim e o lago, ondulando-o. Esse espetáculo foi acompanhado pela presença do sol, que deixou o lago destapado.
Sorri. Sabiam que eu estava ali.
Despi depois a minha camisola de manga curta e pousei-a sobre o casaco que estava sobreposto numa pedra molhada. Subi para aquele não muito alto muro e apreciei o som das minhas botas a tocar no musgo molhado aos meus pés.
Ouvi o som do vento ao longe e sabia que ele se estava a aproximar. Deixei as minhas mãos fluírem em torno do meu corpo e tudo o que me rodeava. Estranhei não presenciar os animais que me acompanhavam sempre que lá ía, mas logo uma grande libelinha me rodeou, fazendo piruetas no seu voo treinado. Atrás de mim, ouvi o som de uma rã, apesar de não a ter visto como normalmente.
Levei as mãos aos céus e lentamente toquei com a ponta dos dedos naquela água poeirenta. As pingas que dançavam na ponta das minhas unhas foram levadas até às minhas bochechas e testa. Desenterrei o bastão sem qualquer dificuldade e coloqueio-o dentro de água. O bastão ficou bastante enterrado, tendo ficado à altura da minha cintura. Toquei a mão direita na ponta bela do bastão e consegui sentir o frio da água. Uma parte de mim deixou-se caír para dentro do lago e nadar. A outra parte estava de pé, em cima do muro, de olhos fechados a ouvir tudo em redor.
A rã atrás de mim continuou a emitir sons. Parecia querer comunicar comigo, mas sempre que me virava,  o coaxar cessava.
Ouvi o som de humanos atrás de mim, a pouco mais de cinco ou dez metros. Estava na altura de voltar. Movi os meus pés pela primeira vez e bati com as mãos uma na outra, fechando os olhos atrás delas.
Vesti-me e olhei o céu cinzento uma ultima vez.
Reparei que as pessoas que eu tinha ouvido estavam bastante longe, a uns bons duzentos metros, os meus sentidos é que estavam mais apurados.
Fiz o caminho inverso calado, de olhos fixos nos meus pés. Quando a minha bota esquerda tocou o chão de pedra do lado de fora da floresta, começou a chover...

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