Antes dos coros, demora-se a guitarra da Sun King e o chá fumega no aposento de matização terne. Os acordes oscilam o fresco de um fim de banho. Uma rotação que, como tantas outras, anoitece cedo. Poupe-se o sol se já de luz estamos nós. Perto de mim um Nobel de capa dura. Azul marinho e páginas amarelas de recalques da existência. Lá de fora, pela tímida abertura da janela, apresenta-se o aroma a Inverno - o cheiro da noite enquanto ainda é dia. Essência e silêncio são a aura da sala e de toda a casa. O escuro, instantes seguidos, idem. Sobrevivem somente os frágeis traços da chuva que caem dos canais. Sobejos de bravura líquida que rejeitam tombar no sobrado.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
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