Mas que merda, que tão bom é. Do que gostava mesmo, neste minuto que já passou mas o desejo mantém vivo, era de poder deixar uma mensagem a Saramago. Algo assim, curto e grosso. Ele que nem a lesse, pouco me importaria, mas que a oportunidade fosse palpável. "Enquanto calamos as perguntas, mantemos a ilusão de que poderemos vir a saber as respostas". Fútil é que, neste caso, isso e nada se aplica. Escrevia-se, na 349, linhas antes da referência a Bracara Augusta, que o que importa é ter sido, não é que venha a ser lida: e faço das tuas, minhas. Anunciar, mas que nada tem de novo, o quão sonante a sua junção silábica é e o quão enaltece a voz de quem o lê em alto. Mas não o consigo manifestar; não a ele. Não o posso, até. Por ventura talvez essa seja a forma realista que Tem, enquanto morto, de se manifestar em quem ainda vive. Em mim, que o coração bate rápido demais. A imortalidade é casamento de palavras.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
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