As pessoas já não pensam em ouvir; pensam, sim, no que vão responder logo a seguir. Não aborvem, atacam. Acenam afirmativamente para demonstrar uma presença que assim se revela desinteressada. Usam a conversa como forma de masturbação do ego, de sobrevalorização do ponto de vista pessoal, e a deixa do outro não serve de ensinamento, mas de mote. Murmuram redundâncias enquanto passivos, porque seria inaceitável do emissor surgir um monólogo sem intervenção do recetor - isso seria um atentado à carga pessoal. Não aceitam que a última palavra não seja a deles. As pessoas, ou indivíduos, já não se importam em escutar. Nascem ensinados. A boa conversa é aquela que consiste num contra-ataca, numa constante troca de argumentos que procuram contrariar o anterior. Mas os bons argumentos são os argumentos puros. Os argumentos que partem da vontade de querer saber e não da vontade de uma supremacia pessoal, de anular o silêncio da voz de quem ouve.
O apagão
Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
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