O meu primeiro eclipse

A última vez que vi um eclipse foi em 2005, no recreio da EB1 Carandá. Eu tinha 7 anos, e não fazia ideia para que serviam aqueles óculos. A professora Olímpia levou-nos a todos para o recreio e ficamos a olhar para o céu. Era de manhã, e de repente ficou noite. E depois voltou a ficar de dia, mas eu já não me lembro do resto.
    Gostava muito da professora Olímpia. Tinha o cabelo vermelho, a cara chupada, e usava sempre calças de ganga com uma coroa de lantejoulas em cada uma das nádegas.
    Um dia levou lá o filho, para nos apresentar. Tínha-nos dito que ele era muito alto, que tinha mais de um metro e noventa; e realmente era grande. Já devia estar no décimo ano, e tinha calças largas e rotas - o que me deixou surpreendido, porque nunca imaginei que o filho de uma professora pudesse ter calças rotas. 
    E aposto não tinha um metro e noventa. No máximo, deveria ter um metro e setenta e cinco 
    Uma altura, no terceiro ano, tive que ir à casa da banho fazer o número dois. Sentei-me do lado de dentro da porta verde - alta, ao ponto de eu conseguir passar por baixo - e cobri a tampa com papel higiénico para não apanhar doenças.
    Devo ter demorado demasiado tempo, porque ouvi a professora Olímpia bater à porta e dizer:
    "Filipe, estás bem?"
    Por acaso estava um bocado atrapalhado.
    "Estou..."
    "Precisas de ajuda para limpar, não é?"
    Eu era um miúdo e ainda estava a aprender a técnica.
    "Sim..."
    Agora que penso, a professora Olímpia tinha deixado uma sala com 32 alunos sozinhos para me vir limpar o rabo. E limpou.
    Tenho saudades da professora Olímpia. Às vezes pergunto-me o que será feito dela.
    Lembro-me que uma altura o meu pai entrou de repente na sala. Estávamos a meio da aula, e interrompeu sem bater à porta.
    Encontrou-me ali no meio das cadeiras e perguntou:
    "Filipe, quem é?"
    Eu percebi logo do que estava a falar.
    "É ele...", e apontei para o Fábio.
    Mas o meu pai achou que eu tinha apontado para o Hércules, e chegou lá e deu-lhe uma bofetada.
    A professora Olímpia ficou muito chocada.   
    "Não pode fazer isso!"
    "Ai não posso? E ele pode?", diz o meu pai.
    "Não é ele.", disse eu, tímido.
    O meu pai ficou meio atrapalhado.
    "Então é quem?"
    E eu voltei a apontar para o Fábio.
    E o meu pai chegou à beira do Fábio e deu mais uma chapada.
    E depois foi-se embora.
    Não adiantou. O Fábio continuou a bater-me, e só parou no quarto ano, quando lhe espetei um murro antes do almoço no ATL. Estávamos na casa de banho a lavar as mãos, e foi o único olho negro que enfiei na vida.
    Depois disso ficámos amigos, e ele vinha sentar-se ao meu lado na camioneta depois da escola. Perguntava-me porque é que eu estava a ler a Bíblia ilustrada para crianças, e depois oferecia-me aqueles Flakes da Cuétara, que a minha mãe nunca me comprava porque eram demasiado caros.
    A duas semanas de sermos finalistas, numa dessas idas de camioneta, a Fafalda Amorim, de quem eu gostava desde o primeiro ano, disse-me que também tinha gostado de mim aquele tempo todo. 
    Eu tinha passado a vida a escrever-lhe cartas de amor, e pensar que os nossos filhos teriam "Amorim-Amorim" como apelido. 
    "Querida Mafalda. Quando te vejo, sinto um desejo. Esse desejo, é dar-te um beijo".
    Escrevi isso num post-it e entreguei-o à funcionária do ATL para que lho desse. 
    Eu era muito medroso. 
    Um dia, numa desfolhada, calhou-me a mim a espiga de milho vermelha. 
    "Milho-Rei!", diz alguém.
    Fiquei sem perceber.
    "Segundo a tradição da desfolhada, quem tiver a espiga de milho vermelha tem que dar um beijo a alguém.
    E eu, cagão, em vez de beijar a Fafalda, fui dar um beijo na bochecha de um gajo que nem me lembro do nome.
    E só agora, três anos depois, é que ela me diz que era mútuo.
    Este tempo todo tinha estado a um olho negro e um bocadinho de coragem de conseguir tudo o que queria; e tinha deixado tudo para a última.
    Vi a professora Olímpia caminhar numa ciclovia uns anos depois. Tinha a mesma cara chupada e cabelo vermelho, e usava umas calças de fato de treino cor de rosas com lantejoulas nas nádegas. 
    Já não me reconheceu, mas não importa. Foi com ela o meu primeiro eclipse. E aposto que hoje sou mais alto que o filho dela.

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