Mensagens

Suspense

Segunda feira, dia 2, do mês 2, de 2026. Hoje, aos 27 anos, fiz a minha primeira tatuagem. Foram 5, na verdade - minimalistas e simbólicas - e sinto-me muito bem na minha pele.      E lá tive que ganhar coragem para contar ao meu pai.      Cheguei ao pé dele "pai, tenho uma coisa para te contar...".      Ele estava a fechar a porta da casa de banho, e deixa-a a meio, sem tirar a mão do puxador. Olha para mim, sério, e continuo: "isto é sério, e não vale a pena estar a adiar".     Confesso que estou nervoso, mas também escondo entusiasmo.     Ele olha para mim, à espera, e eu faço uma longa pausa para aumentar o suspense:     "Pai. Eu gosto de homens".     Ele nem pisca os olhos. Continua a olhar, sem reação; a mão fechada no puxador, o braço ainda nos noventa graus.      E começo-me a rir.     "Não, estou a gozar".     Os ombros dele descaem.     Lentamente, ...

Shampoo

Sou daqueles gajos que usa o shampoo para o cabelo, rosto, peito, braços, partes, pernas, partes outra vez, e pés. E só não uso para as mãos porque o sabão é mais barato e quando faz frio vou direto ao álcool gel.     Por isso, quando me aparece um shampoo 2 em 1, apresso-me que nem um boato na aldeia, ou o Trump quando vê um pedaço de gelo. Compro, aplico, espalho com entusiasmo, e fico que nem um entusiasta de self-care pronto para as morning routine da Vogue; até cremezinho hidratante passo no final.      Além disso, alegra-me saber que estou a ajudar o ambiente ao reduzir nas embalagens.     Mas recentemente descobri que um shampoo saudável deveria ter um pH de 4,5-5,5 e os gel de banho um pH 5-6. Mais que isso é demasiado alcalino, e menos que isso é demasiado ácido     Ora, estes produtos multifacetados todos otimizados têm um pH ali nos 7, mais adaptado para a pele, e que explica a minha trufa depois do banho.     Portanto, i...

Notas de um jovem imundo

o gajo da mullet passa a vida a fumar ganzas, mas entrou no curso de astrofísica com honras e acho mesmo que o chegou a acabar. Depois do serviço militar obrigatório fartou-se e hoje em dia faz vídeos e para a semana vai ao Dubai cobrir um evento qualquer.     Atenas tem em si quase metade da população da Grécia e eu cá acho que vieram todos parar a este bar. Mas está um frio do caralho e não percebo porque é que estamos todos cá fora. Lá dentro há menos gente e a música é melhor, mas estamos de cu colado às cadeiras de metal e só o descolamos para ir buscar os amendoins ao centro da mesa, que alguém pagou e não fui eu.     há a professora com tatuagens, a psicóloga de cabelo curto e o médico que não para de beber. A empregada chupa o sal dos dedos e pergunta-nos se queremos mais alguma coisa. Eu quero é um de chá com bebida vegetal em casa, mas pedem mais uma ronda de amendoins e não me resta fazer mais nada senão comer.     encontro uma pequena moeda no b...

Um ensaio sobre o entretenimento

Estou a ler 'A primavera negra' do Henry Miller (suposta obra prima em crónica) e, embora o início dos capítulos seja muito envolvente, rapidamente se torna moroso, com parágrafos extensos e metáforas e ações extrapoladas. E dou por mim desconcertado e a saltar páginas à frente. E claro, Filipe como sou, auto crítico e com tendência haraki, não perco tempo a culpabilizar a minha incapacidade geracional de me deixar conquistar por textos mais densos ou figurados (- porque, se na altura resultou, então claramente o problema sou eu). Mas ponho-me a rever essa conclusão e não acho que se sustente tão bem assim. Porque de facto consumo peças extensas e também me harmonizam e entretêm os clássicos. E não descartando a possibilidade da minha falta de intelecto ou sensibilidade (mas das quais, neste caso, insuspeito por adorar a escrita em fluxo de consciência), permito-me a testar outra hipótese: Tendemos a valorizar a arte antiga e a rebaixar a moderna ao entretenimento vazio e hiper...

Reflexões de antes e agora

Talvez as coincidências sejam apenas encontros que ainda não sabemos decifrar.  E a magia é isso mesmo. Não está no impossível, mas no possível que já está a acontecer. O tu e eu aqui, agora. Porque mesmo que existam 500 mundos paralelos, é neste que estamos. E eu deixei de crer. Não preciso. Não creio mais. Agora sei. Não sei o quê, não sei como, não sei porquê. Mas também não preciso. Não é que queira acreditar. É. É factual. Está a acontecer. Existe. Com H. E se o universo permitiu esta combinação específica de tempo, lugar, pensamento e encontro, então isto é mágico o suficiente. Não precisa de adorno. Já tem peso, valor, consequência. E o destino talvez exista, sim, mas não como um guião fechado. Existe como um campo de possibilidades, um terreno inclinado, um vento que não tento compreender, mas preciso de aprender a navegar. A compreensão é um luxo que não nos é exigido. O resto, sim.

Abelhas em traços contínuos

Há uns meses fui de mota até à Póvoa para ver a Fernanda e testar a cabeça e preparar o corpo para distâncias a duas rodas pela Nacional.     Capacete aberto, gola despreocupada, vento na cara, e um pacto silencioso entre a estrada e os outros motards com quem me cruzava.     A ida foi-me mais demorada, pelo apego a um GPS que teimava em não me deixar no sítio certo. Serviu-me a memória que sobrara do ano anterior, e lá descansei a mota perto do farol vermelho.     Dias depois, já na volta, os traços contínuos já não me assustavam e bastou-me seguir as placas brancas.     Mas a meio caminho sinto uma mudança na pele do pescoco. Primeiro estranheza, depois incómodo, depois dor. Um fisgar agudo e um latejar que se ia espalhando.     Dou uma guinada de surpresa e levo a mão ao pescoço. De músculos tensos pelo vento e a velocidade, escavo a gola e sinto-a. Uma abelha.     Esmago-a com os dedos e atiro-a tipo beata. Pressiono o calo...

A carta para o emigrante

Escrevo-te de dentro da camioneta, depois de uns dias em que mal ti vi, mas que me soube bem saber-te por perto.      Estamos sempre pouco tempo juntos quando vos visito. Ora porque apareço de surpresa e não dá para planear, ora porque estás ocupado com os estudos, o trabalho, a carta e o namoro. Mas pelo menos sei que posso, se quiser, aparecer na churrasqueira para uma conversa rápida, e que nos cruzaremos de madrugada sempre que formos procurar comida nos armários.     Vi uma coisa interessante sobre quantos dias nos restam com os pais: Tendo em conta que vou a casa a cada 1 ou 2 meses, estou com eles 10 vezes por ano. Supondo que viverão até aos 80, restam-me 200 visitas – 199 agora.     E tenho pensado nisso em relação a ti; em quantas mais vezes te vou ver. E custa-me concluir que, apesar de sermos novos, talvez não chegue às 200.     Está claro que nem tudo é perfeito quando a gente se encontra. Quando estamos longe, damo-nos todo...