Mensagens

Poeiras d'obras no nariz e claquetes escritas a giz

Desta vez faço a minha ida a Lisboa em duas partes, com uma estada pelo meio em Coimbra para, pela primeira vez, trabalhar numa criação da Sofia. O bom disto é que assim a viagem para a capital não parece tão longa; o mau é que vou apanhar o atraso dos comboios duas vezes.      Não recordo a última vez que estive em Coimbra, mas quando a Sofia-Atriz me recebeu no alojamento, apontou para o Portugal dos pequeninos ao {não tão} longe {assim}; talvez tenha sido essa a última, quando fisicamente ainda ali cabia.     Só a conhecia dos ensaios online que tivemos a três. Recebeu-me descalça, de calções e umbigo à mostra, os pés com terra e completamente despojada de vaidade. Gostei logo; fez-me uma apresentação do espaço e deu-me logo margem para me recolher e descansar da viagem. Mas puxei conversa e acabámos por ficar mais de uma hora no terraço, com o centro histórico aos nossos pés e o Mondego a acompanhar a conversa.     Depois fui tomar banho e dei temp...

Amizade

"Friendship, I’m slowly realising, is the unseen architecture beneath so many moments the world mistakes for independence." – Sophie Bri Keeble Quinta-feira, 11 de setembro de 2025. Acordo no sofá-cama da casa do Feliciano em Lisboa, com um sol que não se deixa intimidar pelas cortinas finas e me relembra que o dia começou sem esperar por mim.      Olho à volta. Não é o meu sofá. Não é a minha casa. É um empréstimo generoso, uma porta aberta por quem me conhece há anos e sabe que estou um bocado à deriva. Isto porque deixei de ter um pouso próprio na cidade que intermitentemente se faz sentir minha. Larguei o canto fixo dos últimos três anos, e já não tenho cabides onde pendurar as roupas.     Entre rodagens de projetos, ante estreias e a escrita, chego a casa a precisar de descansar, mas sem as quatro paredes onde possa realmente desligar o motor. E assim o cansaço acumula como a poeira que se faz sentir à minha volta.     Os dois cães são velhos, ma...

Suspense

Segunda feira, dia 2, do mês 2, de 2026. Hoje, aos 27 anos, fiz a minha primeira tatuagem. Foram 5, na verdade - minimalistas e simbólicas - e sinto-me muito bem na minha pele.      E lá tive que ganhar coragem para contar ao meu pai.      Cheguei ao pé dele "pai, tenho uma coisa para te contar...".      Ele estava a fechar a porta da casa de banho, e deixa-a a meio, sem tirar a mão do puxador. Olha para mim, sério, e continuo: "isto é sério, e não vale a pena estar a adiar".     Confesso que estou nervoso, mas também escondo entusiasmo.     Ele olha para mim, à espera, e eu faço uma longa pausa para aumentar o suspense:     "Pai. Eu gosto de homens".     Ele nem pisca os olhos. Continua a olhar, sem reação; a mão fechada no puxador, o braço ainda nos noventa graus.      E começo-me a rir.     "Não, estou a gozar".     Os ombros dele descaem.     Lentamente, ...

Shampoo

Sou daqueles gajos que usa o shampoo para o cabelo, rosto, peito, braços, partes, pernas, partes outra vez, e pés. E só não uso para as mãos porque o sabão é mais barato e quando faz frio vou direto ao álcool gel.     Por isso, quando me aparece um shampoo 2 em 1, apresso-me que nem um boato na aldeia, ou o Trump quando vê um pedaço de gelo. Compro, aplico, espalho com entusiasmo, e fico que nem um entusiasta de self-care pronto para as morning routine da Vogue; até cremezinho hidratante passo no final.      Além disso, alegra-me saber que estou a ajudar o ambiente ao reduzir nas embalagens.     Mas recentemente descobri que um shampoo saudável deveria ter um pH de 4,5-5,5 e os gel de banho um pH 5-6. Mais que isso é demasiado alcalino, e menos que isso é demasiado ácido     Ora, estes produtos multifacetados todos otimizados têm um pH ali nos 7, mais adaptado para a pele, e que explica a minha trufa depois do banho.     Portanto, i...

Notas de um jovem imundo

o gajo da mullet passa a vida a fumar ganzas, mas entrou no curso de astrofísica com honras e acho mesmo que o chegou a acabar. Depois do serviço militar obrigatório fartou-se e hoje em dia faz vídeos e para a semana vai ao Dubai cobrir um evento qualquer.     Atenas tem em si quase metade da população da Grécia e eu cá acho que vieram todos parar a este bar. Mas está um frio do caralho e não percebo porque é que estamos todos cá fora. Lá dentro há menos gente e a música é melhor, mas estamos de cu colado às cadeiras de metal e só o descolamos para ir buscar os amendoins ao centro da mesa, que alguém pagou e não fui eu.     há a professora com tatuagens, a psicóloga de cabelo curto e o médico que não para de beber. A empregada chupa o sal dos dedos e pergunta-nos se queremos mais alguma coisa. Eu quero é um de chá com bebida vegetal em casa, mas pedem mais uma ronda de amendoins e não me resta fazer mais nada senão comer.     encontro uma pequena moeda no b...

Um ensaio sobre o entretenimento

Estou a ler 'A primavera negra' do Henry Miller (suposta obra prima em crónica) e, embora o início dos capítulos seja muito envolvente, rapidamente se torna moroso, com parágrafos extensos e metáforas e ações extrapoladas. E dou por mim desconcertado e a saltar páginas à frente. E claro, Filipe como sou, auto crítico e com tendência haraki, não perco tempo a culpabilizar a minha incapacidade geracional de me deixar conquistar por textos mais densos ou figurados (- porque, se na altura resultou, então claramente o problema sou eu). Mas ponho-me a rever essa conclusão e não acho que se sustente tão bem assim. Porque de facto consumo peças extensas e também me harmonizam e entretêm os clássicos. E não descartando a possibilidade da minha falta de intelecto ou sensibilidade (mas das quais, neste caso, insuspeito por adorar a escrita em fluxo de consciência), permito-me a testar outra hipótese: Tendemos a valorizar a arte antiga e a rebaixar a moderna ao entretenimento vazio e hiper...

Reflexões de antes e agora

Talvez as coincidências sejam apenas encontros que ainda não sabemos decifrar.  E a magia é isso mesmo. Não está no impossível, mas no possível que já está a acontecer. O tu e eu aqui, agora. Porque mesmo que existam 500 mundos paralelos, é neste que estamos. E eu deixei de crer. Não preciso. Não creio mais. Agora sei. Não sei o quê, não sei como, não sei porquê. Mas também não preciso. Não é que queira acreditar. É. É factual. Está a acontecer. Existe. Com H. E se o universo permitiu esta combinação específica de tempo, lugar, pensamento e encontro, então isto é mágico o suficiente. Não precisa de adorno. Já tem peso, valor, consequência. E o destino talvez exista, sim, mas não como um guião fechado. Existe como um campo de possibilidades, um terreno inclinado, um vento que não tento compreender, mas preciso de aprender a navegar. A compreensão é um luxo que não nos é exigido. O resto, sim.