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The last time

It took me a little while to realize it was goodbye.     She never said it. I never said it. We didn’t have to. I could read it between the lines.     Hers.     I guess deep down I knew. It would have been strange if it hadn’t happened this way. Too easy. Too smooth. Something won without ever having to be fought for.      I can not expect someone to simply wait for me to decide. To wait for me to come back. To wait for me to be ready. Expecting someone to put their life on hold for you wouldn’t be right. It wouldn’t be fair.     But it would have been nice.     I guess unnamed, exclusive relationships are my thing. Things that mean everything without ever being called anything. Things that end without ever officially beginning.     They say you can’t break a broken heart. But somehow, there’s always a little bit more left to break.

O meu primeiro eclipse

A última vez que vi um eclipse foi em 2005, no recreio da EB1 Carandá. Eu tinha 7 anos, e não fazia ideia para que serviam aqueles óculos. A professora Olímpia levou-nos a todos para o recreio e ficamos a olhar para o céu. Era de manhã, e de repente ficou noite. E depois voltou a ficar de dia, mas eu já não me lembro do resto.     Gostava muito da professora Olímpia. Tinha o cabelo vermelho, a cara chupada, e usava sempre calças de ganga com uma coroa de lantejoulas em cada uma das nádegas.     Um dia levou lá o filho, para nos apresentar. Tínha-nos dito que ele era muito alto, que tinha mais de um metro e noventa; e realmente era grande. Já devia estar no décimo ano, e tinha calças largas e rotas - o que me deixou surpreendido, porque nunca imaginei que o filho de uma professora pudesse ter calças rotas.      E aposto não tinha um metro e noventa. No máximo, deveria ter um metro e setenta e cinco      Uma altura, no terceiro ano, tive q...

Poeiras d'obras no nariz e claquetes escritas a giz

Desta vez faço a minha ida a Lisboa em duas partes, com uma estada pelo meio em Coimbra para, pela primeira vez, trabalhar numa criação da Sofia. O bom disto é que assim a viagem para a capital não parece tão longa; o mau é que vou apanhar o atraso dos comboios duas vezes.      Não recordo a última vez que estive em Coimbra, mas quando a Sofia-Atriz me recebeu no alojamento, apontou para o Portugal dos pequeninos ao {não tão} longe {assim}; talvez tenha sido essa a última, quando fisicamente ainda ali cabia.     Só a conhecia dos ensaios online que tivemos a três. Recebeu-me descalça, de calções e umbigo à mostra, os pés com terra e completamente despojada de vaidade. Gostei logo; fez-me uma apresentação do espaço e deu-me logo margem para me recolher e descansar da viagem. Mas puxei conversa e acabámos por ficar mais de uma hora no terraço, com o centro histórico e o Mondego como pano.     Depois fui tomar banho e dei tempo para tornar aquele espaço u...

Amizade

"Friendship, I’m slowly realising, is the unseen architecture beneath so many moments the world mistakes for independence." – Sophie Bri Keeble Quinta-feira, 11 de setembro de 2025. Acordo no sofá-cama da casa do Feliciano em Lisboa, com um sol que não se deixa intimidar pelas cortinas finas e me relembra que o dia começou sem esperar por mim.      Olho à volta. Não é o meu sofá. Não é a minha casa. É um empréstimo generoso, uma porta aberta por quem me conhece há anos e sabe que estou um bocado à deriva. Isto porque deixei de ter um pouso próprio na cidade que intermitentemente se faz sentir minha. Larguei o canto fixo dos últimos três anos, e já não tenho cabides onde pendurar as roupas.     Entre rodagens de projetos, ante estreias e a escrita, chego a casa a precisar de descansar, mas sem as quatro paredes onde possa realmente desligar o motor. E assim o cansaço acumula como a poeira que se faz sentir à minha volta.     Os dois cães são velhos, ma...

Suspense

Segunda feira, dia 2, do mês 2, de 2026. Hoje, aos 27 anos, fiz a minha primeira tatuagem. Foram 5, na verdade - minimalistas e simbólicas - e sinto-me muito bem na minha pele.      E lá tive que ganhar coragem para contar ao meu pai.      Cheguei ao pé dele "pai, tenho uma coisa para te contar...".      Ele estava a fechar a porta da casa de banho, e deixa-a a meio, sem tirar a mão do puxador. Olha para mim, sério, e continuo: "isto é sério, e não vale a pena estar a adiar".     Confesso que estou nervoso, mas também escondo entusiasmo.     Ele olha para mim, à espera, e eu faço uma longa pausa para aumentar o suspense:     "Pai. Eu gosto de homens".     Ele nem pisca os olhos. Continua a olhar, sem reação; a mão fechada no puxador, o braço ainda nos noventa graus.      E começo-me a rir.     "Não, estou a gozar".     Os ombros dele descaem.     Lentamente, ...

Shampoo

Sou daqueles gajos que usa o shampoo para o cabelo, rosto, peito, braços, partes, pernas, partes outra vez, e pés. E só não uso para as mãos porque o sabão é mais barato e quando faz frio vou direto ao álcool gel.     Por isso, quando me aparece um shampoo 2 em 1, apresso-me que nem um boato na aldeia, ou o Trump quando vê um pedaço de gelo. Compro, aplico, espalho com entusiasmo, e fico que nem um entusiasta de self-care pronto para as morning routine da Vogue; até cremezinho hidratante passo no final.      Além disso, alegra-me saber que estou a ajudar o ambiente ao reduzir nas embalagens.     Mas recentemente descobri que um shampoo saudável deveria ter um pH de 4,5-5,5 e os gel de banho um pH 5-6. Mais que isso é demasiado alcalino, e menos que isso é demasiado ácido     Ora, estes produtos multifacetados todos otimizados têm um pH ali nos 7, mais adaptado para a pele, e que explica a minha trufa depois do banho.     Portanto, i...

Notas de um jovem imundo

o gajo da mullet passa a vida a fumar ganzas, mas entrou no curso de astrofísica com honras e acho mesmo que o chegou a acabar. Depois do serviço militar obrigatório fartou-se e hoje em dia faz vídeos e para a semana vai ao Dubai cobrir um evento qualquer.     Atenas tem em si quase metade da população da Grécia e eu cá acho que vieram todos parar a este bar. Mas está um frio do caralho e não percebo porque é que estamos todos cá fora. Lá dentro há menos gente e a música é melhor, mas estamos de cu colado às cadeiras de metal e só o descolamos para ir buscar os amendoins ao centro da mesa, que alguém pagou e não fui eu.     há a professora com tatuagens, a psicóloga de cabelo curto e o médico que não para de beber. A empregada chupa o sal dos dedos e pergunta-nos se queremos mais alguma coisa. Eu quero é um de chá com bebida vegetal em casa, mas pedem mais uma ronda de amendoins e não me resta fazer mais nada senão comer.     encontro uma pequena moeda no b...