Poeiras d'obras no nariz e claquetes escritas a giz
Desta vez faço a minha ida a Lisboa em duas partes, com uma estada pelo meio em Coimbra para, pela primeira vez, trabalhar numa criação da Sofia. O bom disto é que assim a viagem para a capital não parece tão longa; o mau é que vou apanhar o atraso dos comboios duas vezes.
Não recordo a última vez que estive em Coimbra, mas quando a Sofia-Atriz me recebeu no alojamento, apontou para o Portugal dos pequeninos ao {não tão} longe {assim}; talvez tenha sido essa a última, quando fisicamente ainda ali cabia.
Só a conhecia dos ensaios online que tivemos a três. Recebeu-me descalça, de calções e umbigo à mostra, os pés com terra e completamente despojada de vaidade. Gostei logo; fez-me uma apresentação do espaço e deu-me logo margem para me recolher e descansar da viagem. Mas puxei conversa e acabámos por ficar mais de uma hora no terraço, com o centro histórico aos nossos pés e o Mondego a acompanhar a conversa.
Depois fui tomar banho e dei tempo para tornar aquele espaço um bocadinho meu. Fiz exercício físico, abri o computador, e facilmente o T1 se metamorfoseou numa extensão de mim.
Uma das paredes estava coberta de postais, e no dia seguinte eu próprio viria a preenche-la. A cozinha era pequena, e achei que não valia a pena ligar o frigorífico só pelo frasquinho pequeno de leite que trazera - agora que penso, talvez tenha sido o que causou o meu mau estar abdominal dias depois.
O sofá é daqueles extensivos, cinzento, onde iremos filmar amanhã a cena principal. E a cama onde dormirei é onde faremos a cena inicial. A casa de banho tem uma tranca, mas vim a descobrir que simbólica, e a porta tem uns vidros improvisados do lado de dentro, onde me fui vendo, em fragmentos, sempre que lá entrava.
Há uma marquise que não era suposto existir, e que tinha sido construida sem pensar muito no facto de se equilibrar mesmo na berma da colina. O azulejo no chão racha a cada novo passo, mas são quatro metros quadrados com uma vista impossível de resistir.
As janelas da sala não são muito largas, mas são altas, e dão para a ponte e o convento Franciscano onde, numas obras, se descobriram uns corpos antigos enterrados.
Em conversa com um amigo, conhecedor da história e da tradição católica, fiquei a saber que, nos terrenos em redor, tinham sido sepultadas as freiras do convento. Soube também que a estátua de Santa Isabel, enmusgoada pelo passar dos anos, havia sido ali colocada ao lado por ter revitalizado o Convento das Clarissas.
Estava em Santa Clara, a meio de uma rua com duas rampas, e estava bem.
Os passos pesados da Sofia-Atriz lá em cima desceram as escadas exteriores, e apareceram-me no terraço, de lábios vermelhos - "Vamos?".
A casa da Sofia-Realizadora era a sete minutos de carro, mas para a Sofia-Atriz era como se fosse já fora de Coimbra.
Recebeu-nos uma arquitetura na parte da cidade já menos antiga, mas mais resguardada. O interior era lindo, e os dois gatinhos também.
Esta foi, talvez, a terceira vez que estive com a Sofia-Realizadora. Conhecemo-nos uns anos antes, numa troca de emails profissionais que se transformaram em relação pessoal. Ela tem destas coisas, uma capacidade de invadir a vida das pessoas da forma mais natural e delicada possível.
Conhecera a Sofs, atriz, numa ida ao centro de autocarro.
"Eu estava no autocarro, sentada naquele lugar à frente, e a Sofs entrou com uma boina super gira na cabeça."
"Sim, e sabes que por acaso foi a única vez que a usei"
"E ela estava cheia de coisas e deixou cair um saco e ficou toda a gente a olhar, e ela lançou-me um olhar e um sorriso que eu pensei logo que tinha que trabalhar com aquela rapariga. Depois quando a Sofs saiu, eu saí atrás dela"
"E depois eu já estava na rua a ir para a universidade, e sinto um toque no ombro e era a Sofia, que olhou para mim e disse que era realizadora e fotógrafa e que um dia tinhamos que fazer qualquer coisa juntas".
Seis meses depois aqui estamos os três, a olhar para uma mesa com o jantar já servido.
A Sofia é vegan e tinha-nos preparado uma bela feijoada de tofu com couve de bruxelas assada, arroz branco e umas tirinhas de cenoura crua a acompanhar. Para sobremesa, uma mousse de chocolate amargo, que tinha como base tofu sedoso (e não seboso).
Honestamente não me lembro da última vez que tive um jantar com esta longevidade. Atuar é, sem dúvida, das atividades que mais prazer me dão. Mas eu vivo mesmo é para convívios e pessoas como estas. Conversas importantes sobre a vida e a morte e tudo que acontece pelo meio.
Horas depois estávamos de regresso ao alojamento. Os passos da Sofs lá em cima e eu cá em baixo, com as janelas todas abertas para deixar entrar a noite animada e os ares da Queima das Fitas ao longe.
Fui para a marquise e debrucei-me. Enquanto não fumador, ter-me-ia sabido bem um cigarro.
No dia seguinte juntou-se o Paulo para operar o som, e a Inês para dar assistência. O André apareceu com uma guitarra na mão e uns biscoitinhos húngaros e tirou-nos fotos de cena.
Fui para Lisboa com vários dias engavetados num só, e com aquela sensação de o corpo não estar no mesmo sítio onde a alma ficou.
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