Amizade
"Friendship,
I’m slowly realising, is the unseen architecture beneath so many
moments the world mistakes for independence." –
Sophie
Bri Keeble
Quinta-feira, 11 de setembro de 2025.
Acordo no sofá-cama da casa do Feliciano em Lisboa, com um sol que não se deixa intimidar pelas cortinas finas e me relembra que o dia começou sem esperar por mim.
Olho à volta. Não é o meu sofá. Não é a minha casa. É um empréstimo generoso, uma porta aberta por quem me conhece há anos e sabe que estou um bocado à deriva. Isto porque deixei de ter um pouso próprio na cidade que intermitentemente se faz sentir minha. Larguei o canto fixo dos últimos três anos, e já não tenho cabides onde pendurar as roupas.
Entre rodagens de projetos, ante estreias e a escrita, chego a casa a precisar de descansar, mas sem as quatro paredes onde possa realmente desligar o motor. E assim o cansaço acumula como a poeira que se faz sentir à minha volta.
Os dois cães são velhos, mas habitam a casa como dois sofás extra que me seguem e tiram o espaço de cada divisão que entro. A gata bebé torna tudo ainda mais claustrofóbico, porque agora temos que fechar algumas das portas, não vá ela estragar as plantas, ou pior, os CDs.
A família do Feliciano soube que cá estou e por isso vem cá várias vezes ao dia. O primo mais novo adora-me e passa cá algumas noites. Quando chego à sala, onde durmo, encontro-o a pular em cima do sofá como se o mundo fosse um trampolim. Abraça-me com a força de um urso de peluche e depois começa a correr de um lado para o outro lado da sala.
“O que é que vais fazer a seguir?”. E antes que eu tenha sequer tempo para responder, “Amanhã a que horas acordas?”.
Respondo só depois de ter a certeza que não vai lançar nova pergunta: “Lá para às nove.”
“Podias acordar às sete e meia para estares comigo.”
“Espera até casar”, diz-me o Rodrigo quando nos encontramos para um café e lhe confesso o meu descontentamento. Sei que tem razão. Por um lado, isto é um ótimo treino. Venho de uma família pequena e de uma casa minhota demasiado grande para nós. Agora experimento o oposto.
Por um lado, adoro a casa cheia. Sou uma pessoa melhor em companhia. Mas sinto falta dos meus jantares calados, quieto debaixo do carapuço.
Aqui não tenho tempos realmente livres. O que é bom, assim também não entro no tipo de decadência que a solidão tão bem me sabe vender. Todo o momento é utilitário, em cada serão acrescento algo ao mundo. Não vegeto, crio uma rotina de sono mais saudável. E a vida em comunhão de porta aberta ensina-me lições que me caem bem, como o facto de cada divisão serve o seu propósito, e que não se trabalha e se come no mesmo sítio.
O meu corpo parece gostar. Acordo desinchado, a pele saudável, sem espinhas, os olhos menos negros. E vou registando este quotidano que depois lhes vou oferecer num álbum no final do mês. Fotografias deles, da casa, de nós.
Não me posso queixar. Não devo. Que direito tenho eu, sequer, para ousar pensar insatisfação. E ainda assim não consigo não o fazer. Ora porque por vezes me sinto sem espaço para mim, ora porque outras vezes me sinto a ocupar demasiado o espaço que, no fundo, é deles.
“Isto para vocês não deve ser fácil. Ter alguém extra a ocupar o sofá.”, comentei com os pais do Feliciano, no último almoço que tivemos juntos.
“O sofá é grande, não te preocupes”, diz-me o pai. E depois acrescenta, com um tom de amor duro: “Se um dia não te quiser nesta casa, tu vais saber.”
Cru, sem rodeios, quase ameaçador, mas ancorado de carinho e confiança. Talvez como uma verdadeira amizade deveria ser.
Acordo no sofá-cama da casa do Feliciano em Lisboa, com um sol que não se deixa intimidar pelas cortinas finas e me relembra que o dia começou sem esperar por mim.
Olho à volta. Não é o meu sofá. Não é a minha casa. É um empréstimo generoso, uma porta aberta por quem me conhece há anos e sabe que estou um bocado à deriva. Isto porque deixei de ter um pouso próprio na cidade que intermitentemente se faz sentir minha. Larguei o canto fixo dos últimos três anos, e já não tenho cabides onde pendurar as roupas.
Entre rodagens de projetos, ante estreias e a escrita, chego a casa a precisar de descansar, mas sem as quatro paredes onde possa realmente desligar o motor. E assim o cansaço acumula como a poeira que se faz sentir à minha volta.
Os dois cães são velhos, mas habitam a casa como dois sofás extra que me seguem e tiram o espaço de cada divisão que entro. A gata bebé torna tudo ainda mais claustrofóbico, porque agora temos que fechar algumas das portas, não vá ela estragar as plantas, ou pior, os CDs.
A família do Feliciano soube que cá estou e por isso vem cá várias vezes ao dia. O primo mais novo adora-me e passa cá algumas noites. Quando chego à sala, onde durmo, encontro-o a pular em cima do sofá como se o mundo fosse um trampolim. Abraça-me com a força de um urso de peluche e depois começa a correr de um lado para o outro lado da sala.
“O que é que vais fazer a seguir?”. E antes que eu tenha sequer tempo para responder, “Amanhã a que horas acordas?”.
Respondo só depois de ter a certeza que não vai lançar nova pergunta: “Lá para às nove.”
“Podias acordar às sete e meia para estares comigo.”
“Espera até casar”, diz-me o Rodrigo quando nos encontramos para um café e lhe confesso o meu descontentamento. Sei que tem razão. Por um lado, isto é um ótimo treino. Venho de uma família pequena e de uma casa minhota demasiado grande para nós. Agora experimento o oposto.
Por um lado, adoro a casa cheia. Sou uma pessoa melhor em companhia. Mas sinto falta dos meus jantares calados, quieto debaixo do carapuço.
Aqui não tenho tempos realmente livres. O que é bom, assim também não entro no tipo de decadência que a solidão tão bem me sabe vender. Todo o momento é utilitário, em cada serão acrescento algo ao mundo. Não vegeto, crio uma rotina de sono mais saudável. E a vida em comunhão de porta aberta ensina-me lições que me caem bem, como o facto de cada divisão serve o seu propósito, e que não se trabalha e se come no mesmo sítio.
O meu corpo parece gostar. Acordo desinchado, a pele saudável, sem espinhas, os olhos menos negros. E vou registando este quotidano que depois lhes vou oferecer num álbum no final do mês. Fotografias deles, da casa, de nós.
Não me posso queixar. Não devo. Que direito tenho eu, sequer, para ousar pensar insatisfação. E ainda assim não consigo não o fazer. Ora porque por vezes me sinto sem espaço para mim, ora porque outras vezes me sinto a ocupar demasiado o espaço que, no fundo, é deles.
“Isto para vocês não deve ser fácil. Ter alguém extra a ocupar o sofá.”, comentei com os pais do Feliciano, no último almoço que tivemos juntos.
“O sofá é grande, não te preocupes”, diz-me o pai. E depois acrescenta, com um tom de amor duro: “Se um dia não te quiser nesta casa, tu vais saber.”
Cru, sem rodeios, quase ameaçador, mas ancorado de carinho e confiança. Talvez como uma verdadeira amizade deveria ser.
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