Suspense

Segunda feira, dia 2, do mês 2, de 2026. Hoje, aos 27 anos, fiz a minha primeira tatuagem. Foram 5, na verdade - minimalistas e simbólicas - e sinto-me muito bem na minha pele. 
    E lá tive que ganhar coragem para contar ao meu pai. 
    Cheguei ao pé dele "pai, tenho uma coisa para te contar...". 
    Ele estava a fechar a porta da casa de banho, e deixa-a a meio, sem tirar a mão do puxador. Olha para mim, sério, e continuo: "isto é sério, e não vale a pena estar a adiar".
    Confesso que estou nervoso, mas também escondo entusiasmo.
    Ele olha para mim, à espera, e eu faço uma longa pausa para aumentar o suspense:
    "Pai. Eu gosto de homens".
    Ele nem pisca os olhos. Continua a olhar, sem reação; a mão fechada no puxador, o braço ainda nos noventa graus. 
    E começo-me a rir.
    "Não, estou a gozar".
    Os ombros dele descaem.
    Lentamente, tiro o carapuço, desaperto o roupão e abro-o. Começo a despir-me com calma, e ele sério, parado. 
    Tiro a última manga, deixo o roupão cair lentamente ao meu lado, e depois agarro a cintura das calças. Desaperto-as lentamente, vou para as tirar, e digo:
    "Eu meti um pipi".
    E rio-me outra vez, estou a adorar isto.
    Ele solta um "Ó", de quem começa a sentir que já está a perder tempo, e lá tira a mão da porta
    Finalmente, puxo a t-shirt pela cabeça e mostro-lhe as tatuagens:
    "Nah, estou a brincar, só fiz estas tatuagens".
    Depois de descartadas as outras hipóteses, acho que ficou bastante aliviado. Aproximou-se, inspecionou-as, e disse.
    "Ó, são falsas".
    E foi-se embora.

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