Atrasos

A linha do metro é nova e perdi-o pelos 13 segundos em que deixei cair a mala enquanto atravessava a cancela. O próximo, amarelo, demorou 9’50” a chegar, e foi o suficiente para ir o resto do caminho a fazer força mental para que o relógio demorasse mais tempo a passar.
    Fiz transbordo na Alameda e, percebendo que tinha ainda 11 minutos pela frente, peguei no telemóvel e pus-me a corrigir os erros de uma nota que tinha escrito.
    “Acho que vou chegar atrasado”, escrevi num SMS, e pus-me a olhar para a planta dos transportes, com o punho cerrado e o pé tilintante.
    Na paragem de Cabo Ruivo, pus o passe em riste, agarrei a mala com força, puxei ao máximo as calças para cima e tirei o som dos fones de ouvidos.
    Mais uma e saio.
    Abrem-se as portas do Oriente e começo a correr. Subo pelas escadas da esquerda, ziguezagueio entre as pessoas e disparo na direção dos autocarros.
    Deslizo na travagem para o exterior e corro até às camionetas azuis ao fundo. Os meus olhos estão turvos, o peso inclina-me para a direita e não tenho sequer tempo para me situar no televisor.
    Precipito-me para o primeiro motorista que vejo fechar um porta bagagens e esforço-me por conseguir perguntar “Vai para Braga?”
    Ele olha, dúbio, para mim “Vou. Mas é Braga mesmo, não passa no Porto”. 
    Deixei-me inspirar fundo e coloco a mala grande e o porta-papéis no porão. Toco-lhe no pulso para agradecer e liberto a mochila apertada nos ombros.
    “Tem bilhete, não tem?”
    “Claro”, volto a tentar responder.
    Ele pica-me o código e a luzinha verde confirma que estou na porta certa.
    “É o lugar 47”, diz-me quando entro, mas sento-me no primeiro lugar duplo que encontro livre.
    Só quando relaxo me apercebo da dor que o vento frio me causou na respiração de garganta. A última vez que me lembro de ficar assim foi nas provas de milha nas aulas de educação física, em que o passar dos anos me deixara cada vez mais atletico, mas não o suficiente para me livrar das reprimendas do professor Paulo.
    “Olha lá pessoal, respirar é de boca fechada”.
    O professor Paulo era das pessoas que mais respeitava naquela escola. Talvez por medo. Talvez por admiração. Bicho, de pouco cabelo, tinha uma voz demasiado fina para a presença imponente, e um intelecto de admirar. Além disso, arranjava sempre forma de parecer estiloso de fato de treino, coisa que ainda hoje não consigo fazer. 
    Lembro-me das cargas de porrada que me dava nas aulas de defesa pessoal, mas também que fui o único a ter a nota máxima nesse ano.
    Por vezes estas porradas fazem bem. Para a próxima já sei que não me atraso no metro.

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