Segunda feira, 28 de abril de 2025. Apagão total em vários países da Europa. i. Só me apercebi porque o trânsito ficou, de repente, caótico. Nos cruzamentos ninguém respeitava ninguém, e decidiam por eles próprios que direções tomar. Os carros estavam todos atabalhuados em para-arrancas e hesitações, e só aí me apercebi que os semáforos não funcionavam. Depois os passeios começaram a encher. As pessoas saíam das casas e vinham para a rua ver o que se passava. Estavam todas ao telemóvel, ora em chamadas telefónicas, ora a prepararem-se para. Caminhei imune a tudo, interpretando como exceção, até que me apercebi que não o era. As pessoas caminhavam mais apressadas, com urgência, e comecei a ouvir as primeiras sirenes ao longe. Foi aí que tirei os fones para ouvir, como se um sentido extra fosse resolver uma situação global. Peguei no telemóvel e liguei os dados móveis, que estavam mais lentos e demoraram mais a carregar. ...
Escrevo-te de dentro da camioneta, depois de uns dias em que mal ti vi, mas que me soube bem saber-te por perto. Estamos sempre pouco tempo juntos quando vos visito. Ora porque apareço de surpresa e não dá para planear, ora porque estás ocupado com os estudos, o trabalho, a carta e o namoro. Mas pelo menos sei que posso, se quiser, aparecer na churrasqueira para uma conversa rápida, e que nos cruzaremos de madrugada sempre que formos procurar comida nos armários. Vi uma coisa interessante sobre quantos dias nos restam com os pais: Tendo em conta que vou a casa a cada 1 ou 2 meses, estou com eles 10 vezes por ano. Supondo que viverão até aos 80, restam-me 200 visitas – 199 agora. E tenho pensado nisso em relação a ti; em quantas mais vezes te vou ver. E custa-me concluir que, apesar de sermos novos, talvez não chegue às 200. Está claro que nem tudo é perfeito quando a gente se encontra. Quando estamos longe, damo-nos todo...
A Dona Rita, de roupão rosa apertado até cima, raspa a manteiga nos dois lados da torrada. O pequeno almoço já vai a meio, e é o pescoço que, com estaleca, vai à mão que segura o último pãozinho. Está surpreendentemente bem composta para quem acaba de acordar. Suponho que use uma maquilhagem minimalista, muito natural, que me deixa a perguntar se já terá acordado assim. "Tenho 88 anos", diz-me, e fazemos as contas: "de 1937". Ontem deitou-se quase tão tarde como nós, mas a genica no corpo e a rapidez de raciocínio são de quem teve uma noite de repasto. E de quem tem bem menos uma década do que aquela que carrega. Vai-se queixando de umas dores nas costas e uns problemas na vista, mas que são normais e não afetam por aí além. Tanto quanto sei, as idas à natação são diárias. A Rita Jr, ao lado, toma o mesmo pequeno almoço de há anos: um pão aberto ao meio, torrado, recheado com manteiga e um ovo que, depende...
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